
PEDREIRO ECOLÓGICO
26 de junho de 2026O PACTO
O Eduardo é um amigo músico dos tempos da faculdade. Liguei para ver se ele poderia me ajudar com uma questão que vinha tirando o meu sono:
— Minhas músicas não fazem sucesso, Edu. O que eu faço?
— Tenta se lembrar daquilo que os grandes mestres da música fizeram e copia. — Não há nada mais original nos dias de hoje.
Desliguei o telefone e levei o conselho a sério. Estudei a fundo a história de vários astros da música mundial e cheguei à conclusão de que eu poderia fazer exatamente o mesmo que Robert Johnson fez. Johnson foi um importante pioneiro do blues americano que, reza a lenda, teria vendido a alma ao diabo para alcançar o sucesso. Na história, ele compareceu a uma encruzilhada à meia-noite para negociar com o demônio, segurando uma garrafa de uísque como oferenda.
Decidi adaptar o ritual à minha realidade geopolítica e gastronômica. Por volta da meia-noite, eu estava em uma encruzilhada no bairro do Lago Oeste, em Brasília. O local assume um silêncio sepulcral nas madrugadas. A escuridão ali era quase palpável, cortada apenas pelo vento frio que balançava os galhos secos do cerrado. Como substituto para o destilado, segurava com firmeza a alça de uma caixa de isopor com seis latas de Coca Light geladas. Eu não bebo.
O silêncio foi subitamente quebrado por um motor distante. Faróis fracos rasgaram o breu, avançando lentamente na minha direção. O veículo parou a poucos metros de mim. O motor continuou roncando, as luzes me cegando. Tomado pelo êxtase e pelo pavor do sobrenatural, caí de joelhos no asfalto áspero, fechei os olhos e clamei com toda a força dos meus pulmões:
— Eu quero fazer um pacto com o diabo e quero ser famoso!
As portas dianteiras do carro abriram simultaneamente. Dois rapazes desceram e um deles, com a voz firme e desprovida de qualquer eco místico, anunciou:
— Passa o celular e a carteira, tiozão.
O comando seco do assaltante congelou minhas reações por um segundo. Minhas mãos começaram a tremer, mas não pelo pavor do oculto, e sim pelo medo mundano de perder meu celular parcelado em doze vezes.
— Calma, cara... — gaguejei, levantando devagar enquanto tateava os bolsos. — Eu só... eu achei que vocês fossem outra pessoa.
— Menos conversa, tiozão! Passa logo o telefone e o dinheiro se não quiser rodar aqui mesmo — o mais alto limpou o nariz na manga do casaco, visivelmente impaciente.
Entreguei o aparelho e a carteira. O segundo rapaz, que até então vigiava o horizonte escuro, apontou com o queixo para o chão:
— E o que tem nesse isopor aí? É cerveja?
— Não... é Coca Light — respondi com a voz miúda, sentindo o ridículo daquela situação atingir o ápice. — Eu não bebo álcool.
O assaltante bufou, abriu a tampa da caixa plástica, encarou as latas vermelhas e prateadas sob a luz dos faróis e balançou a cabeça em sinal de pura decepção.
— Você é maluco, coroa? Ficar na rua a uma hora dessas fazendo macumba com refrigerante zero? Vamos embora, Cleiton. Esse cara aí não bate bem da bola, não.
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