
A CAMISA DA SELEÇÃO
2 de abril de 2026DIREITA (Financiamento)
Tem gente que vota com a barriga. Essas pessoas são aquelas cujo preço dos alimentos tem fundamental importância na hora de eleger alguém. Existem outras em que a religião é o ponto primordial na hora do voto, mesmo que o Estado seja laico. No meu caso, não era o preço dos alimentos nem a religião que estavam me influenciando a votar em alguém: era o financiamento do meu apartamento.
De fato, a dívida da minha residência era algo que me incomodava. Eu tinha cerca de trinta por cento da renda comprometida com as prestações e a sensação de que o saldo devedor havia diminuído pouco após três anos fazendo pagamentos. Foi por isso que, quando apareceu o candidato Flávio, me juntei a ele na sua campanha até a presidência da República. Flávio havia dito que iria facilitar a vida de quem tinha financiamento imobiliário no Brasil. Ele inclusive dava seu próprio exemplo como garantia de quem estava falando a verdade:
— Eu fiz um financiamento de alguns milhões de reais de uma mansão em Brasília e quitei em três anos sem sequer ter renda para isso. Vou ensinar cada brasileiro a fazer o mesmo e a se livrar da dívida — disse durante a campanha.
Flávio foi eleito e seis meses depois ainda não havia revelado sua mágica para os financiamentos imobiliários espalhados pelo país. Ao completar um ano de governo, falou sobre o assunto na TV:
— Gostaria de dizer às pessoas que querem saber como quitei meu imóvel que eu não sou o Mister M. que revela seus segredos. Cada um que descubra o seu.
Muitos se indignaram com aquela fala. Outros disseram que políticos eram todos iguais. Eu ainda fiz uma portabilidade da dívida para outro banco, mas pouco adiantou.
2026
Esquerda (Quarenta)
Eu havia desistido de trabalhar para o governo devido a tanta corrupção. A decepção foi tão grande que só algumas galinhas, uma vaca e meia dúzia de porquinhos me fizeram companhia por algum tempo numa chácara de Brasília. Aquela havia sido a saída encontrada por mim para ficar longe do poder e da bandalheira que assolavam o país naquele período.
Porém, esse tipo de fuga acaba sempre mais rápido do que a gente prevê. Eu acabei topando voltar ao governo quando me propuseram um grande e bem remunerado desafio: criar o quadragésimo ministério no governo Dilma.
— Precisamos das suas ideias, Pompa — disse um assessor do planalto. — São tantos ministérios que nossas ideias para criação de mais uma pasta simplesmente acabaram.
Aquilo não foi tarefa fácil. O governo possuía um número recorde de ministérios e criar mais um poderia virar um escândalo. Eu tinha que agradar ao governo e ao mesmo tempo tomar cuidado com a imprensa e com a oposição. Tudo o que o Brasil menos precisava naquele momento era de mais um ministério.
Dia da coletiva de imprensa em Brasília
Eu entrei num auditório lotado e dei bom dia a todos.
— Bom dia! Para quem não me conhece, eu sou o Pompa. Durante alguns dias, fiquei me perguntando como conseguiríamos criar o quadragésimo ministério no meio de toda essa crise. Minha ideia é a criação de uma pasta que tenha um produto como símbolo. Um produto barato e acessível. Um produto gostoso e que seja do Brasil. E acima de tudo um produto que represente muito bem o cenário político atual.
— E que produto milagroso é esse, Pompa? — Indagou um jornalista.
— Se é barato, não pode ser nem a carne e nem a gasolina — disse um outro em tom de deboche.
Nessa hora a reunião tumultuou um pouco e eu tive que pedir silêncio. E assim que os ânimos serenaram, anunciei:
— É com pompa e circunstância que eu apresento a vocês o Ministério da Marmelada.

O governo Dilma Rousseff teve 39 ministérios. Foi o maior número de pastas desde a redemocratização. Porém, o quadragésimo ministério você só encontra aqui.
Ministério da Marmelada é um desenho de Roque Sponholz.
Facebook: Roque Sponholz
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