
CAIXINHAS DE NATAL
10 de dezembro de 2021CONSENTIMENTO
Eu estava com um amigo num bar de música ao vivo em Brasília, quando conheci uma mulher chamada Bárbara. A Bárbara estava com um drink na mão e cantarolava as músicas da banda que se apresentava. Foi quando me aproximei:
– Pelo jeito você curte muito esse tipo de música – falei a ela.
– Sim, eu gosto muito de rock nacional.
– Eu já vi essa banda tocando lá no Galpão 17. Você conhece o Galpão?
– Conheço. Eu já vi eles tocando lá também.
– Como é o seu nome?
– Meu nome é Bárbara e o seu?
– Eu sou o Pompa, Bárbara. Você está aqui há muito tempo?
– Sim, cheguei cedo. Vou até pegar mais um drink.
– Posso te acompanhar? Eu vou pegar uma cerveja.
– Pode sim, Pompa.
Comprei uma cerveja, e ela, um drink.
– Você está sozinha?
– Estou naquela mesa lá no fundo, mas o pessoal só quer ficar sentado. Eles não querem dançar.
– Eu estou com um amigo que está circulando por aí. Você quer dançar?
– Quero sim.
A gente dançou por uns vinte minutos e ela quis pegar outro drink.
– Vamos ao bar novamente, Pompa. Quero pegar mais uma bebida.
Quando chegamos ao bar, encontrei o meu amigo.
– Quem é esta mulher, Pompa?
– É Bárbara o nome dela. Eu a conheci aqui.
– Ela parece meio embriagada.
– Verdade.
– Leva ela para a tua casa, Pompa. Mulher quando está neste estado fica fácil de pegar.
– Ninguém tem condição de dar consentimento quando está alcoolizado. É melhor pegar o contato e deixar para encontrar numa outra ocasião.
Antes de irmos embora, deixei a Bárbara na mesa com os amigos dela tomando uma água com gás para amenizar a ressaca. Depois de uns três ou quatro dias, ela apareceu lá em casa.
– Oi, Pompa. Você disse que tinha uma coleção de discos de vinil. Quero ver.
Mostrei o meu acervo e ela se interessou por um álbum da banda paulistana Ira! Coloquei o disco para tocar, e a gente se beijou algumas vezes. Num dado momento, ela me afastou e disse:
– Vamos com calma, Pompa. A gente ainda está se conhecendo.
Me afastei.
Na semana seguinte, era feriado de Dia do Trabalho, e eu a convidei para irmos ao cinema. Após o filme, fomos lanchar, e ela sugeriu:
– Estou querendo fazer uma caminhada no Parque da Cidade amanhã. Quer ir comigo?
– Sim. Vou adorar.
Ela me pegou às 09:00. Andamos cerca de quatro quilômetros. Paramos para tomar uma água de coco, e ela me fez um convite:
– Vamos lá para a minha casa, Pompa? Você ainda não conhece o meu cafofo.
– Cafofo é a minha casa, Bárbara. A sua deve ser cafofa.
A gente já tinha ido à minha casa. Ela havia desistido de seguir adiante em termos sexuais. Caso acontecesse de ficarmos juntos na casa dela também, nada impediria que aquele comportamento da Bárbara se repetisse. O consentimento deve ser algo explícito, contínuo e passível de ser retirado a qualquer momento.
2026
*Livremente inspirado no livro:
SCARPATI, Arielli Sagrillo; LINS, Beatriz Aciolly; CHAKIAN, Silvia. Precisamos falar de consentimento: uma conversa descomplicada sobre violência sexual além do sim e do não. São Paulo: Bazar do Tempo, 2024.


