
POLÍTICA 2
9 de março de 2021
TANINOS
10 de março de 2021CONSENTIMENTO
Eu estava com um amigo num bar de música ao vivo em Brasília, quando conheci uma mulher chamada Bárbara. A Bárbara estava com um drink na mão e cantava as músicas da banda que se apresentava. Foi quando me aproximei:
— Pelo jeito você curte muito esse tipo de música – falei a ela.
— Sim, eu gosto bastante de rock nacional.
— Eu já vi essa banda tocando lá no Galpão 17. Você conhece o Galpão?
— Conheço. Eu já vi eles tocando lá também.
— Como é o seu nome?
— Meu nome é Bárbara e o seu?
— Eu sou o Pompa, Bárbara. Você está aqui há muito tempo?
— Sim, cheguei cedo. Vou até pegar mais um drink.
— Posso te acompanhar? Vou pegar uma cerveja.
— Pode sim.
Comprei uma cerveja, e ela, um drink.
— Você está sozinha?
— Estou naquela mesa lá no fundo, mas o pessoal só quer ficar sentado. Eles não querem dançar.
— Estou com um amigo que está circulando por aí. Você quer dançar?
— Quero sim.
A gente dançou por uns vinte minutos e ela quis pegar outro drink.
— Vamos ao bar novamente. Quero pegar mais uma bebida.
Quando chegamos ao bar, encontrei meu amigo.
— Quem é esta mulher, Pompa?
— É Bárbara o nome dela. Eu a conheci aqui.
– Ela parece meio bêbada.
— Verdade.
— Leva ela para a tua casa. Mulher quando está neste estado fica fácil de pegar.
— Ninguém tem condição de dar consentimento quando está alcoolizado. É melhor pegar o contato e deixar para encontrar numa outra ocasião.
Antes de irmos embora, deixei a Bárbara na mesa com os amigos dela. Depois de uns três ou quatro dias, ela apareceu lá em casa.
— Oi, Pompa. Você disse no bar que tinha uma coleção de discos de vinil. Quero ver.
Mostrei o meu acervo e ela se interessou por um álbum de Rita Lee. Coloquei o disco para tocar, e a gente se beijou. Num dado momento, ela me afastou e disse:
— Vamos com calma. A gente ainda está se conhecendo.
Me afastei.
Na semana seguinte, era feriado de Dia do Trabalho, e eu a convidei pra irmos ao cinema. Após o filme, fomos lanchar, e ela sugeriu:
— Estou querendo fazer uma caminhada no Parque da Cidade amanhã. Quer ir comigo?
— Sim. Vou adorar.
Ela me pegou às 09h. Andamos cerca de quatro quilômetros. Paramos para tomar uma água de coco, e ela me fez um convite:
— Vamos lá pra a minha casa, Pompa? Você ainda não conhece o meu cafofo.
— Cafofo é a minha casa, Bárbara. A sua deve ser cafofa.
Nós já tínhamos ido à minha casa, e ela havia desistido de seguir adiante em termos sexuais. Caso ficássemos juntos na casa dela, nada impediria que aquele comportamento da Bárbara se repetisse. O consentimento deve ser algo explícito, contínuo e passível de ser retirado a qualquer momento.
2026
Livremente inspirado no livro:
SCARPATI, Arielli Sagrillo; LINS, Beatriz Aciolly; CHAKIAN, Silvia. Precisamos falar de consentimento: uma conversa descomplicada sobre violência sexual além do sim e do não. São Paulo: Bazar do Tempo, 2024.


