
A CAMISA DA SELEÇÃO
2 de abril de 2026
PEDREIRO ECOLÓGICO
26 de junho de 2026TERRÍVEL ENGANO
Foi difícil acreditar no que aconteceu aquele dia. Eu estava tomando o meu café da manhã sossegado, quando a Polícia Federal bateu na porta da minha casa e o agente falou:
—Temos um mandado de prisão para o senhor. Queira nos acompanhar, Pomba.
— Pomba? Eu me chamo Pompa. Deve estar havendo algum engano.
— Os enganos serão resolvidos na Polícia Federal. Vamos embora.
Diante daquele fato, só me restou acompanhar os agentes. E quando chegamos na PF, recebi uma notícia ainda pior do delegado:
— O senhor vai ficar numa cela com políticos presos por corrupção. Acho melhor deixar a carteira e o relógio aqui conosco.
— Com certeza — respondi. — Com essa turma todo cuidado é pouco.
Atravessamos o corredor e chegamos na cela. Assim que eu entrei, cumprimentei os larápios:
— Bom dia.
— Bom dia — eles responderam.
Um deles me perguntou:
— Quem é você, Pomba? Não lembro do seu nome em nenhum esquema de corrupção que a gente praticou.
E tentando parecer ameaçador, respondi:
— Eu sou o inescrupuloso Pomba. É melhor vocês se afastarem.
Outro larápio do colarinho branco tirou um sarro da minha cara:
— Essa Pomba deve ter vindo lá daquele Pombal da Praça dos Três Poderes.
Eles começaram a rir e eu me preocupei. Foi quando me sentenciaram de vez:
— Eu vou avisar aos outros detentos que a pombinha chegou e está arrulhando querendo fazer ninho.
2018
FINANCIAMENTO
Tem gente que vota com a barriga. Essas pessoas são aquelas cujo preço dos alimentos tem fundamental importância na hora de eleger alguém. Existem outras em que a religião é o ponto primordial na hora do voto, mesmo que o Estado seja laico. No meu caso, não era o preço dos alimentos nem a religião que estavam me influenciando a votar em alguém: era o financiamento do meu apartamento.
De fato, a dívida da minha residência era algo que me incomodava. Eu tinha cerca de trinta por cento da renda comprometida com as prestações e a sensação de que o saldo devedor havia diminuído pouco após três anos fazendo pagamentos. Foi por isso que, quando apareceu o candidato Flávio, me juntei a ele na sua campanha até a presidência da República. Flávio havia dito que iria facilitar a vida de quem tinha financiamento imobiliário no Brasil. Ele inclusive dava seu próprio exemplo como garantia de quem estava falando a verdade:
— Eu fiz um financiamento de alguns milhões de reais de uma mansão em Brasília e quitei em três anos sem sequer ter renda para isso. Vou ensinar cada brasileiro a fazer o mesmo e a se livrar da dívida — disse durante a campanha.
Flávio foi eleito e seis meses depois ainda não havia revelado seus segredos. Ao completar um ano de governo, finalmente falou sobre o assunto na TV:
— Para quem vive perguntando como quitei meu imóvel: eu não sou o Mister M para sair revelando minhas mágicas. Cada um que lute e descubra a sua própria.
Político é tudo igual, pensei.


