
CONECTADOS NO AMOR
3 de fevereiro de 2021TATUAGEM
Eu conhecia a Claudinha há cerca de dois anos. Ela malhava no mesmo horário que eu numa academia em Brasília. Um belo dia eu resolvi convidá-la para sair.
– Quer sair comigo, Claudinha? Eu te conheço há tanto tempo que eu resolvi fazer este convite.
– Para onde você quer me levar, Pompa? Vai depender da programação.
– A gente pode ir a um show ou em um restaurante, por exemplo.
– Vamos a um restaurante. Quando chega o fim de semana eu já estou cansada de fazer dieta.
Eu levei a Claudinha numa casa de massas e ela gostou. Nós ainda frequentamos mais alguns lugares durante uns três meses até irmos para a minha casa. No meu apartamento eu a abracei na sala e disse que eu estava achando aquilo tudo especial.
– Eu também estou me divertindo muito, Pompa. – Ela disse.
A Claudinha estava usando uma blusa com alças e eu percebi uma tatuagem nas costas dela.
– Que tatuagem é essa? – Perguntei.
Ela abaixou um pouco mais a blusa e eu vi tatuado: Deus, pátria e família. Eu olhei novamente para ter a certeza do que eu estava lendo: Deus, pátria e família. Era aquilo mesmo. O lema fascista de Jair Bolsonaro.
Eu fiquei decepcionado, mas lembrei que eu também havia votado naquele negacionista em 2018. Foi quando ela disse:
– Está tudo bem, Pompa?
– Mais ou menos, Cláudia. Você é da extrema-direita?
– Eu sabia que era por causa da tatuagem que você tinha ficado desse jeito. Posso te contar uma história?
– Claro.
– Eu sei que não devemos falar dos nossos antigos relacionamentos assim no começo de outro, mas é importante.
– A gente está tendo um relacionamento?
– Depois a gente discute isso. Deixa eu falar, por favor.
– Ok.
– Meu ex-marido era bolsonarista e tinha uma família toda da extrema-direita. Para eu me sentir mais aceita eu acabei fazendo esta tatuagem.
– Entendi. E como você fez para sair de lá? Com uma família dessas deve ter sido difícil.
– Eu costumava fazer uma feijoada aos sábados. Um belo dia, convidei todos eles e coloquei veneno de rato na comida. Eu matei uma meia dúzia.
– Puxa, Cláudia. Você merecia ter um feriado nacional com o seu nome.
– É claro que isso é mentira, Pompa. Eu fui ajudada por uma psicóloga e algumas amigas.
– Você agora é de esquerda?
– Ninguém precisa ser de esquerda para mudar a própria vida.
2025


