
PEDREIRO ECOLÓGICO
21 de maio de 2021CAIXINHAS DE NATAL
O fim do ano foi chegando e com ele os pedidos de doações. Naquele período as chuvas castigavam alguns estados do Brasil e havia milhares de necessitados. Eu fiz minhas doações no próprio trabalho pois existiam várias caixas de coleta nas portarias da empresa.
Quando eu cheguei na seção, me pediram para colaborar com uma vaquinha para o menor estagiário. Ele havia completado 18 anos e tinha que se desligar do programa. Uma outra servente quando ficou sabendo do agrado ao adolescente também pediu que contribuíssemos com ela e eu consenti.
Era véspera de Natal e eu havia recebido meu décimo terceiro. Enquanto eu trabalhava pensava em ir até a Livraria Cultura* no término do expediente para gastar um pouco da grana. Ainda naquele mesmo dia, eu colaborei com mais uma caixinha. Daquela vez eram os carregadores de material que haviam pedido as doações.
A tarde estava quase no final e eu ficara encarregado de fechar a seção. Enquanto eu enrolava na internet, pensava em um livro da escritora Martha Medeiros me esperando na livraria. De repente, entrou uma senhora na seção dizendo:
— Jesus te ama, meu filho. Colabore com a caixinha da irmã.
Pensei comigo: nesse ritmo e eu é que vou ter que fazer uma caixinha natalina para mim. Mesmo assim eu disse:
— Espere um pouco. Deixe eu olhar aqui no meu bolso.
Olhei na carteira e havia uma velha nota de R$1,00 e outra de R$5,00. Eu estiquei a de R$1,00 e falei:
— Bom Natal, irmã.
A mulher me olhou com ar aborrecido e disse:
— É mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus.
Nunca mais colaborei com aquelas malditas caixinhas.
2010
*A Livraria Cultura funcionou em Brasília de 2005 a 2021 e encerrou suas atividades por conta de uma crise financeira.


